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O tratamento da enxaqueca sempre deve levar em consideração 3 dimensões: tratamento das crises, medidas de estilo de vida e tratamento preventivo. Hoje vamos falar sobre o uso de Antidepressivos no tratamento preventivo da enxaqueca.

É comum que alguns pacientes estranhem quando recebem uma prescrição de um antidepressivo em uma consulta para enxaqueca. Por isso, é importante esclarecer alguns conceitos fundamentais.

Todas as medicações orais utilizadas atualmente no tratamento da enxaqueca não foram desenvolvidas para esse fim. A descoberta do efeito dessas substâncias (antidepressivos) sobre a enxaqueca se deu em estudos que investigavam sua ação em outras doenças. Ao perceber que pacientes com depressão e enxaqueca, estavam melhorando de suas dores de cabeça ao usar antidepressivos, pesquisadores passaram a estudar o uso dessas medicações em pessoas que não tinham depressão, mas apenas enxaqueca. Esses estudos comprovaram que essa classe de medicação tem indicação em pessoas que sofrem somente com enxaqueca. O mesmo aconteceu com outras classes, como os anticonvulsivantes e anti- hipertensivos.

Existem duas classes de anticonvulsivantes com bons estudos e indicação de uso em pacientes com enxaqueca:

      • Antidepressivos tricíclicos (ex.: Amitriptilina e Notrtiptilina)
      • Antidepressivos duais (ex.: Venlafaxina, Duloxetina).

Os antidepressivos tricíclicos estão entre os primeiros medicamentos utilizados para o tratamento da enxaqueca. As doses utilizadas são comumente diferentes do tratamento para depressão. Alguns dos efeitos colaterais possíveis são: sonolência, boca seca, constipação intestinal e ganho de peso. Pacientes que tem dificuldade de iniciar o sono podem se beneficiar pelo uso da medicação no período noturno. Outro efeito colateral possível, e que deve ser monitorado durante o tratamento, é a redução da libido. Nem todos os pacientes apresentam efeitos colaterais. Além disso, uma forma de facilitar a adaptação e reduzir os efeitos colaterais é começar com dose baixa e aumentar gradualmente até a dose alvo do tratamento. Os riscos da medicação durante a gestação devem ser discutidos com o médico.

Outra classe de antidepressivos disponível é a dos duais (ex.: Venlafaxina). Comumente utilizados para o tratamento da depressão e do transtorno de ansiedade, essas medicações tem boa efetividade no tratamento preventivo da enxaqueca. Alguns dos efeitos colaterais possíveis são: náusea, “tontura” e fadiga. Raramente observa-se alteração do sono (que pode ser insônia ou sonolência). O peso geralmente é pouco afetado. Quando presentes, é muito comum que os efeitos colaterais sejam transitórios, e para reduzi-los é recomendado iniciar o tratamento com doses baixas e aumentar gradualmente até a dose alvo. Entretanto, nem todos os pacientes apresentam efeitos colaterais. Os riscos da medicação durante a gestação devem ser discutidos com o médico.

De uma maneira geral, todos os tratamentos preventivos levam de 4 a 12 semanas para apresentar os efeitos terapêuticos: redução da frequência e da intensidade das crises. Em alguns casos, mesmo com crises frequentes, os pacientes observam uma redução da intensidade dos sintomas, ou uma melhora da resposta ao tratamento analgésico. Um fator fundamental para se conseguir os resultados desejados é a aderência correta ao tratamento, ou seja, uso diário e regular, conforme prescrito e orientado pelo médico.

Uma dúvida frequente no consultório é: esses medicamentos causam dependência? A resposta é não. Apesar de serem medicamentos controlados, eles não desenvolvem dependência, e via de regra o tratamento é iniciado com objetivo de ser concluído após um período de tempo em que tenha-se atingido o resultado desejado. Entretanto, esse tempo é muito variável em função de fatores constitucionais (genéticos), estilo de vida, uso excessivo
de analgésicos, resposta ao tratamento agudo e ao preventivo.

Se você sofre com enxaqueca e tem impacto em sua qualidade de vida, é fundamental que esteja em acompanhamento médico. Para saber mais, continue lendo os próximos posts! Informação é fundamental para o melhor resultado do tratamento.

Dr. Marcio Nattan - Neurologista

Dr. Marcio Nattan é Neurologista pela FMUSP, membro da Sociedade Brasileira de Cefaleia e membro da International Headache Society. CRM-SP 149524

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